
Há uma década, as encostas da Serra Capixaba eram cobertas de tomateiros ao relento. Hoje, quem passa pela região de Afonso Cláudio, Domingos Martins, Alfredo Chaves e Venda Nova do Imigrante, os quatro maiores produtores de tomate do Espírito Santo, vê um cenário diferente: fileiras de estufas brancas que se curvam sobre o relevo serrano, cobrindo áreas cada vez maiores. A tomaticultura capixaba trocou de modelo de produção.
“Todo mundo está partindo para a estufa”, afirma Hélcio Costa, agrônomo com décadas de atuação na região serrana capixaba. “Quem está no tomate em campo aberto hoje está vendo a atividade ficar inviável economicamente.”
Antes era exceção plantar em ambiente protegido. Hoje é exceção quem ainda não foi. Em regiões como Venda Nova do Imigrante, segundo Costa, praticamente não se vê mais tomate em campo aberto. Em Afonso Cláudio (que responde por 15,83% de toda a produção capixaba segundo dados do Incaper) a migração avança safra a safra, com novos produtores anunciando estufas onde antes havia lavouras convencionais.
O motor mais visível dessa mudança é o clima. O inverno de 2026 chegou com força na Serra Capixaba com oscilações bruscas de temperatura que comprometem a floração, derrubam frutos e destroem o trabalho de meses. Dentro das estufas, a temperatura se mantém estável, entre 24 e 26 graus, independente do que acontece do lado de fora. O ambiente controlado elimina a principal variável que o produtor de campo aberto nunca conseguiu dominar: o tempo.
Mas o clima é apenas o gatilho mais recente de uma transformação que tem outras razões igualmente concretas. A estufa reduz drasticamente o uso de defensivos agrícolas. Segundo pesquisas da Embrapa, no cultivo protegido o uso de fungicidas pode ser reduzido em mais de 90% em relação ao campo aberto, e o uso de herbicidas e nematicidas torna-se praticamente desnecessário.
Numa lavoura convencional de tomate, são realizadas entre 60 e 80 aplicações de defensivos por ciclo. Na estufa, esse número cai para 8 a 10. A diferença não é apenas de custo, é de saúde do trabalhador rural, de impacto ambiental e de qualidade do fruto que chega ao consumidor.
O tomate produzido em ambiente protegido é mais uniforme, tem maior vida útil pós-colheita e menos perdas no transporte. Para quem vende para grandes redes de supermercado e atacadistas que exigem padrão consistente de fornecimento, essa regularidade tem valor comercial direto. O mercado premium paga mais por produto com rastreabilidade e padrão garantido e a estufa é o caminho mais seguro para entregar isso de forma consistente.
O investimento inicial é mais elevado do que o plantio convencional. A estrutura exige infraestrutura, sistemas de irrigação, manejo técnico rigoroso e capital. Mas o retorno se distribui ao longo dos ciclos: menos defensivo, menos perda por evento climático, mais qualidade, mais previsibilidade de produção e melhor preço no mercado.
O Espírito Santo é o sétimo maior produtor nacional, com valor de produção de R$ 559 milhões, segundo o IBGE. A produção está concentrada principalmente em Afonso Cláudio, Domingos Martins, Santa Maria de Jetibá, Alfredo Chaves e Venda Nova do Imigrante. É nessa região que a migração para as estufas acontece com mais força e onde o novo modelo já é, para a maioria dos produtores, simplesmente o modelo. “Não tem volta mais”, resume Hélcio Costa.
FONTE: Folha Vitória











