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Sabe aquela velha frase de que a união faz a força? Por mais “batida” que seja, os agricultores de Domingos Martins Valdeci Zahn e Adriano Wruck acreditam que se aplica bem ao trabalho que desenvolvem. Eles são adeptos da produção orgânica, e para se fortalecerem e melhorarem a qualidade do que é plantado, integram um grupo que colabora para o fortalecimento do plantio sem agrotóxicos no Espírito Santo, através de fiscalização e informação.
Com mais nove produtores, eles fazem parte de uma Organização de Controle Social (OCS) dentro da Cooperativa de Empreendedores Rurais de Domingos Martins (Coopram), da qual participam. Com visitas e reuniões, trocam experiências e mostram que quando um apoia o outro, dá resultado.
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Grupo de OCS da Coopram em visita de fiscalização no interior de Domingos Martins — Foto: Juliana Borges/G1
“A OCS veio pra somar a uma ideia que eu já tinha, de produzir orgânicos, e veio dar um incentivo maior para que a gente continuasse nessa visão, porque não é fácil. Me ajuda no sentido de troca de experiências, e isso só faz a gente evoluir e crescer na nossa profissão”, explicou Valdeci Zahn.
Com o cadastramento em uma OCS, o produtor passa a conseguir vender diretamente ao consumidor e também colaborar com a merenda escolar, o que já é feito pela Coopram.
Os produtores assinaram um Termo de Compromisso juntos, para a atender à Lei n° 10.831/03, ao Decreto Nº 6.323/07 e aos demais regulamentos da produção orgânica em vigor.
A Organização é fiscalizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e por isso é tão importante esse apoio dentro do grupo, pois quando um “sai da linha”, todos são responsabilizados.
“Pra gente também é voltar a ter uma cultura que havia se perdido. Antigamente as pessoas se visitavam, trocavam sementes, ideias, cultivos diferentes, mas isso tinha acabado. Através da OCS, a gente visita a propriedade de um, de outro, senta e conversa sobre a forma de resolver algum problema naquela propriedade, manejo de controle de pragas, e aprendemos cada vez mais coisas novas”, definiu seu Adriano Wruck.
Um dia de fiscalização
O G1 acompanhou um dia de fiscalização da OCS da Coopram, na propriedade do agricultor Genival Simer. Ele solicitou participar do grupo, mas antes precisava ter as plantações avaliadas. Sete produtores participaram, juntamente com um técnico da cooperativa e um do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).
Antes de irem para o sítio, todos se reuniram na sede da Coopram e seguiram juntos. “Fomos analisar o que o seu Genival está usando na propriedade pra ver se ele tem como agregar junto ao nosso grupo de OCS”, explicou o diretor-presidente da Cooperativa, Darli José Schaefer.
Durante a visita, é importante que os membros da OCS observem tudo, desde o que é usado nas plantações até a produção de lixo. Vários pontos são levados em consideração para saber se o jeito que o agricultor trabalha colabora com o meio ambiente.
Com base nisso, são feitas sugestões. “A gente sugeriu ao proprietário que mude a horta dele de lugar. Na área que ele planta tem uma plantação de café logo acima, que ainda está da maneira convencional. Falamos para ele mudar de lugar e também plantar pelo menos parte do café de maneira orgânica. Fica mais fácil de fazer as barreiras [ecológicas] e ele vai ter mais facilidade de se adequar às normas”, explicou Darli.
O engenheiro agrônomo do Incaper, Mário Cesar Rivaldi, explicou que a visita de fiscalização tem duração de cerca de duas horas e que apesar de ele sempre acompanhar o grupo nesses dias enquanto profissional, são os próprios produtores que mais contribuem com a fiscalização.
“Desenvolvemos esse trabalho junto com os produtores da OCS e é muito bacana porque é uma produção agrícola voltada para a sustentabilidade e qualidade de vida dos envolvidos, tanto produtores quanto consumidores. Damos o apoio técnico e também com capacitações, mas nas visitas, quem fiscaliza mesmo são os produtores, o próprio grupo dá as orientações, cada um dá a sua contribuição”, falou.
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Produtores da OCS da Coopram em visita a propriedade rural de agricultor que quer fazer parte do grupo e conseguir um certificado de produção orgânica — Foto: Juliana Borges/G1
No caso de visitas a produtores rurais que querem fazer parte da OCS, como é o caso de Genival, os agricultores explicaram que o grupo opina e orienta a respeito do que já é aplicado na propriedade. Já os técnicos indicam o que ainda precisa ser feito, conforme explicou o técnico agrícola da Coopram, Giovani Junior Liebe Falconi.
“No momento em que o seu Genival pediu pra fazer parte do grupo, já nos organizamos para a visita. Os produtores avaliam as barreiras ecológicas, recursos hídricos, o manejo junto às culturas. Já eu como técnico da Cooperativa avalio as partes externas, como métrica de barreira, as práticas que ele poderia estar utilizando e não está, o que ele não está fazendo ainda”, definiu.
Para quem já está na OCS, é importante que cada vez mais produtores queiram participar do grupo para fortalecer a produção de orgânicos na região.
“A gente fica feliz com pessoas aderindo essa ideia. E a gente dá esse apoio, ajuda da melhor maneira possível, para agregar ao nosso trabalho também”, explicou o produtor Valdeci.
Ao final de cada visita, os produtores retornam para a sede da Coopram para discutir o que foi visto, aprendido e ensinado. No caso do seu Genival, como um exemplo de um agricultor que quer participar da OCS, o grupo avalia a possibilidade, vota e informa a decisão ao cooperado.
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Reunião dos produtores da OCS após visita na propriedade do seu Genival — Foto: Juliana Borges/G1
Mas esse não é o único tipo de visita de fiscalização que o grupo faz. A mais comum acontece entre os que já participam da OCS, para ver se todos estão cumprindo as regras fundamentais para a produção orgânica. Quem não cumpre tem a punição de não participar mais.
São visitas mensais. O presidente da Cooperativa contou que desde que a OCS foi implantada, no final de 2014, a Coopram colabora para a evolução dos produtores de orgânicos, principalmente colaborando para a abertura de mercado.
“A gente iniciou a OCS fazendo uma oficina para os produtores que tinham interesse. Trouxemos um técnico de Santa Catarina que veio falar como funcionava e a partir daí que a gente despertou um interesse maior entre os cooperados que já tinham essa ideia de produzir orgânicos. Desde o início damos assistência técnica, vamos junto nas propriedades onde são feitas as visitas, mas o maior suporte da cooperativa é na comercialização dos produtos. Nós achamos mercado para eles”, disse Darli.
PRODUTORES
A reportagem visitou as propriedades de quatro agricultores que participam ativamente da OCS, sendo um em transição – que começou a adotar as práticas orgânicas há pouco tempo – e outros três já certificados. Confira as histórias deles:
‘Sou um produtor em transição’
O técnico agrícola Heitor Peterle Schneider, de 22 anos, faz parte da nova geração de produtores que enxerga o futuro no mercado de orgânicos no Espírito Santo.
Filho de produtor, Heitor tem um contrato de comodato com o pai e está no processo de transição para a produção orgânica em cinco hectares dentro da propriedade da família, que ainda utiliza a produção convencional.
“Sou um produtor em transição. Hoje eu tenho banana nanica, gengibre, inhame, estou começando agora com o plantio de hortaliças, mas como forma de laboratório. Estou começando a horta fazendo uma experiência, para saber o que vai se desenvolver melhor na propriedade e depois dar continuidade em maior quantidade, para comercialização em feira”, contou.
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Heitor está produzindo banana nanica sem o uso de agrotóxicos — Foto: Juliana Borges/G1
Como o pai e o irmão ainda não são adeptos da agricultura orgânica, ele contou com o apoio da esposa e do sogro – que também é integrante da OCS – para começar.
“A minha esposa foi criada em uma família que não utiliza produtos químicos há anos e ela sempre me incentivou. Em casa, só estávamos consumindo os produtos sem químicos, mas a gente ainda vendia com agrotóxicos. Ela me perguntava ‘você acha que isso tá certo?’. Ela que me fez abrir os olhos”, disse.
Para ser considerado um produtor orgânico, ele contou que precisa seguir todo um protocolo de produção, para desintoxicação do solo e também de todo o ambiente de entorno, o que leva o tempo mínimo de um ano.
A produção orgânica vai além do cultivo livre de agrotóxicos. Deve respeitar aspectos ambientais, sociais, culturais e econômicos, ou seja, um sistema agropecuário sustentável. Todos esses pontos são fiscalizados pela OCS.
“Temos algumas normas a seguir, como por exemplo, a barreira natural para dividir a minha propriedade das que fazem o uso do agrotóxico. No meu caso, tenho um produtor vizinho de usa agrotóxicos, então tenho que fazer essa barreira para proteger a minha produção, para que não haja contaminação. Hoje eu uso matéria orgânica, antes utilizava veneno. No caso do esgoto, eu ainda não tenho a fossa correta, a biodigestora, tenho que fazer. No caso do lixo, fazemos a coleta seletiva e damos a destinação correta. Preservo também beiras de córregos e rios. A gente não pensa só na produção, mas no bem-estar da terra, porque aí a consequência disso é também uma boa produção”, disse Heitor.
‘Maior qualidade de vida’
Dentro da OCS, a propriedade familiar do agricultor Sidnei Strey se destaca pela produção de morangos e uvas orgânicos e com certificação reconhecida. Uma conquista que representa muito no trabalho e estilo de vida dele.
“É uma maior qualidade de vida, porque você não usa produtos químicos e ainda agrega valor ao seu produto. Dá pra você vender por um preço melhor”, explicou.
No sítio eles também produzem verduras, mas apenas para consumo próprio. Com a cabeça mais aberta para mudanças, resolveu testar ainda uma técnica diferente de plantio, com o morango semi-hidropônico.
“Como ele fica por cima das estruturas de madeira, você consegue trabalhar melhor porque não fica abaixado, e a planta dura mais. Pode chegar a dois anos e meio colhendo na mesma planta”, disse.
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Produtor Sidnei Strey investe na produção de morangos orgânicos semi-hidropônicos — Foto: Juliana Borges/G1
Para Sidnei, a implantação da OCS na Cooperativa veio para capacitar e aproximar os participantes.
“Mudou em questão de mais informação. Na fiscalização a gente tem mais contato com os outros produtores, mais amizade, cada agricultor tem uma coisa diferente pra te falar”
‘Respeito à vida’
“A questão do respeito à vida foi o que me despertou pra parar de usar o veneno e começar a produzir os orgânicos. Quando você começa a perceber as coisas que acontecem com o uso de produtos químicos, percebe que faz mal tanto para você quanto para os outros.”
O agricultor Valdeci Zahn foi um dos primeiros cooperados a produzir orgânicos pela Coopram e um dos principais incentivadores da OCS. Hoje ele produz café – o carro-chefe -, laranja, mexerica e banana. Tudo livre de agrotóxicos.
“A minha visão de orgânicos é de 10 anos atrás, acho que até mais. Mas é aquilo, o sistema te oferece uma forma de produção já pronta, com o uso de agrotóxicos, e você fica com medo de sair. Isso é ainda muito novo. Você pensa em como vai produzir sem insumos, sem adubo, sem tudo aquilo que você já conhecia. Mas de uns três anos para cá eu decidi produzir tudo orgânico e foi dando certo. A qualidade de vida melhorou, pois você sabe que o produto químico faz mal pra saúde do agricultor e do consumidor”, contou.
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Seu Valdeci produz laranja e mexerica na parte mais alta da propriedade, em Domingos Martins — Foto: Juliana Borges/G1
Por já ter o certificado da OCS e já estar no ramo há mais tempo, ele não precisaria mais participar das fiscalizações e reuniões, mas contou que continua atuando no grupo para aprender cada vez mais, transmitir conhecimento e também servir de exemplo para os outros produtores.
“A OCS veio pra somar a uma ideia que eu já tinha, de produzir orgânicos, e veio dar um incentivo maior para que a gente continuasse nessa visão, porque não é fácil. Me ajuda no sentido de troca de experiências, e isso só faz a gente evoluir crescer na nossa profissão.”
Saúde da família
“Quando a gente começou a mudar a maneira de produzir, não acreditávamos que iria dar resultado.”

Produtor Adriano Wruck conta sua história com os orgânicos, no ES – Reportagem e Edição: Juliana Borges
Foi preciso um problema de saúde na família para que o agricultor Adriano Wruck começasse a investir na orgânicos.
Sem ceder aos pedidos do filho mais velho, que aprendeu sobre a produção livre de agrotóxicos quando estudou na escola família agrícola, o produtor viu a esposa passar por uma intoxicação para então mudar totalmente as técnicas de plantio.
“Meu filho Juliano sempre quis que a gente começasse, mas eu achava que morreríamos de fome. Só que chegamos em um ponto que não dava mais, minha esposa estava doente e não dava mais para continuar com o veneno. Pra nós, hoje, produzir os orgânicos significa qualidade de vida”, definiu.
Hoje, o carro-chefe é a produção de café orgânico certificado. O diferencial é que a família tem uma pequena indústria na propriedade, onde faz o beneficiamento do café. Dessa maneira, o produto já sai pronto para a mesa do consumidor.
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Família Wruck tem uma pequena indústria na propriedade e, dessa forma, o café já sai pronto para consumo — Foto: Juliana Borges/G1
Na propriedade a família também planta banana, milho, feijão, hortaliças e frutas diversas. Sem a utilização dos agrotóxicos, nunca mais ninguém passou mal.
O filho mais novo, Joelson Wruck, cresceu observando essas mudanças e hoje também ajuda o pai, principalmente no beneficiamento de café e vendas. Ele explicou que a implantação da OCS na cooperativa veio para agregar valores ao que eles já vinham fazendo.
“É uma multiplicação de ideias. No início a gente ficava pensando em como isso iria dar certo. Mas aí fomos nos informando, assistindo a palestras com pessoas que a Coopram trazia, vendo exemplos e começamos a entender de que forma iria ser. É uma fiscalização agradável, uma troca de ideia, pois você vê como no outro dá certo e busca aplicar isso na sua propriedade também”, falou o jovem.
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Estufa para secar o café na propriedade da família Wruck — Foto: Juliana Borges/G1












