
Até o final de maio, apenas 9% da safra brasileira de café 2026/27 havia sido colhida, segundo levantamento semanal da Safras & Mercado. O percentual está abaixo dos 13% registrados no mesmo período de 2025 e distante da média dos últimos cinco anos, de 14% para essa época do ano.
No Espírito Santo, maior produtor brasileiro de Conilon, apenas 13% dos trabalhos estão concluídos. Segundo Gil Barabach, analista da Safras & Mercado, os trabalhos seguem em ritmo lento, prejudicados pela umidade e pela maturação mais lenta das lavouras.
“O clima continua favorável às atividades no campo e o rendimento, embora ainda ligeiramente abaixo do esperado, mostra melhora com o avanço dos trabalhos em lavouras mais novas e com perfil produtivo mais alto”, aponta.
A recomendação técnica é aguardar que pelo menos 70% dos frutos estejam maduros antes de iniciar a colheita. Quando a chuva e a florada não chegam de forma uniforme ao longo do ciclo, a maturação também não acompanha e o produtor precisa esperar mais para entrar nas áreas, ou aceitar uma entrada antecipada que compromete o rendimento e a qualidade.
O atraso da colheita, isolado, poderia ser tratado como questão logística e de manejo. Mas ele não está isolado. O preço do conilon tipo 7 está em torno de R$ 880-900 por saca, o menor patamar dos últimos dois anos. O mercado já precificou a chegada de um volume expressivo.
O Vietnã, principal concorrente do conilon capixaba no mercado global, exportou 31 mil toneladas de robusta em abril, alta de 16,8% em relação ao mesmo mês. A combinação de oferta interna crescendo e concorrência externa acelerando é o cenário que o produtor enfrenta na hora de definir quando e por quanto vender.
A dinâmica de mercado que se desenha para os próximos meses tem uma lógica: quanto mais a colheita atrasa, mais o volume tende a se concentrar num período menor de tempo. Quando o café de várias regiões chega ao mercado ao mesmo tempo, os compradores têm mais opção, menos urgência e mais poder de pressionar o preço para baixo. Para o produtor que não fez venda antecipada, a janela de negociação fica mais estreita exatamente no momento de maior oferta.
A comercialização antecipada da nova safra também está travada. Até o final de maio, apenas 16% do potencial produtivo do conilon havia sido negociado antecipadamente, bem abaixo da média histórica de 25% para o período, segundo a Safras & Mercado. Os produtores estão priorizando a venda do café disponível e adiando as negociações da nova safra, o que concentra ainda mais o risco para os meses à frente.
Há um fator que pode mudar parcialmente esse quadro. Os estoques brasileiros de café estão baixos e as exportações recuaram nos primeiros meses de 2026 em relação ao ano anterior. Isso significa que o mercado internacional aguarda a entrada da nova safra com interesse. Enquanto o volume não chega, o preço tem algum suporte. O problema é que esse suporte é temporário: quando a colheita ganhar ritmo e os embarques voltarem a crescer, a pressão sobre o preço tende a se intensificar.
A diferença entre quem atravessa bem essa safra e quem não atravessa está cada vez menos no volume colhido e cada vez mais na qualidade do café e na estratégia de comercialização. O produtor que monitora a maturação, entra no momento certo, cuida do pós-colheita e conhece o comprador para quem está vendendo tem margem diferente do que vende no pico de oferta sem planejamento. Num mercado com preço pressionado, qualidade e estratégia são o que protege o resultado no caixa da propriedade.












