Inteiração, esforço conjunto, caminhar na direção da unidade são os conceitos do ecumenismo. Trata-se de um esforço conjunto entre as diferentes igrejas e comunidades cristãs. O termo deriva da palavra grega ‘oikoumene’, que significa “a inteira habitação da terra”.
Enquanto um momento mundial caminha na união, há movimentos políticos que militam no sentido contrário, provocando disputas. Pior do que isso, o mundo vive guerras, como entre palestinos e israelenses, onde religião e política contaminam as relações gerando violência e morte.
Diante disso, nada mais importante do que destacar que neste sábado, 21 de outubro, é celebrado o Dia Mundial do Ecumenismo. Mas, e se o ecumenismo rompesse os limites do cristianismo e englobasse outras religiões?
O surgimento do cristianismo no século IV, promoveu a manutenção de divergências doutrinárias conhecidas como heresias, como explica o especialista Edenbrande Cavalieri. “A fim de superá-las foi-se convocado o concílio ecumênico a fim de reunir a doutrina cristã em um bloco. Porém esse entendimento só era valido para quem era cristão o que deu início a onde de violência contra os não-cristãos através das cruzadas”.
Somente após o Concílio Vaticano II que a igreja católica muda de posição e se torna uma das maiores defensoras do ecumenismo, como explica o especialista. “O movimento ecumênico não é um movimento pela unificação doutrinária e disciplinar, e sim por um convívio plural. Ainda há um grande caminho a percorrer, se analisarmos hoje, o conjunto cristão ainda é extremamente dividido”.
Apesar de parecidos quanto ao formato, há uma distinção entre o ecumenismo e o diálogo inter-religioso no que tange as ciências religiosas, como destaca o estudioso. “Apesar do ecumenismo poder abranger as religiões em geral, a palavra é restrita às igrejas cristãs, enquanto a questão do diálogo inter-religioso traz uma perspectiva mais abrangente já que permite ir além da doutrina de cada religião”.
“À medida que a humanidade está avançando, torna-se a cada dia mais difícil o convívio na pluralidade e é nesse ponto que entra o diálogo inter-religioso”, afirma Edenbrande Cavalieri.
Desta forma, o diálogo inter-religioso vai além do cristianismo, incluindo outras manifestações religiosas como as religiões de matriz africana, as religiosidades indígenas e as orientais como o hinduísmo, o budismo e até mesmo o islamismo.
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Democracia e diversidade
A coordenadora do Movimento Negro Unificado do Espírito Santo (MNU), de tradição de Matriz Africana, Ana Raquel Martins Moura, aponta que o diálogo inter-religioso é fundamental para o respeito à diversidade e ao exercício da democracia, que é um dos pilares do Estado brasileiro.
“Visto que a religião é um dos traços da identidade de um indivíduo, de um grupo, a sua subjetividade também está representada ali, ela dialoga diretamente com a religião e a religião também dialoga com a cultura, os dois eles trocam, eles se constituem um através do outro”.
O historiador Edenbrande Cavalieri aponta que apesar da democracia ser um caminho útil, necessário e indispensável para a vida plural, na prática, o Brasil ainda está longe de chegar ao convívio pacífico. “Hoje, praticamente 70% da população brasileira não está disposta a conviver com os diferentes, seja no trabalho, condomínio ou casa”.
Para o especialista, a principal razão dessa intolerância é o fundamentalismo. “É a tendência em que aplicam a leitura dos textos sagrados sem interpretação ou hermenêutica, conforme os interesses próprios. Um exemplo disso é a perspectiva do povo salvo pregado pelo Antigo Testamento que traz Israel como povo escolhido, enquanto no Novo Testamento há a visão ecumênica”.
O fundamentalismo, como elucida o professor aposentado é acirrado por polarizações de cunho ideológicas não-religiosas. “O nível de convivência social está profundamente marcado pelas polarizações. O resultado disso é o fundamentalismo que hoje é uma doença que atinge a maioria das religiões. Não é preciso adentrar o mundo islâmico para senti-lo, no Brasil temos casos de templos e imagens religiosas destruídos”.
A falta de espaço e informação
A perseguição violenta a manifestações de religiões, sobretudo, de matriz africana, marcaram o processo histórico de formação da sociedade brasileira, como aponta Ana Raquel. “Os cultos tradicionais de matriz africana em suas múltiplas manifestações e tradições que temos hoje, são oriundos desse processo de adaptação e resguardo, para a preservação da religiosidade matriz africana”.
De acordo com a coordenadora do MNU, a perseguição religiosa delimita não apenas as características de um culto, como também a existência de uma pessoa. “O diálogo inter-religioso é fundamental para preservar o direito de existência dessas pessoas e até mesmo a preservação de valores fundamentais para a nossa sociedade, como o respeito à questão ética, moral, respeito pela vida, pelo meio ambiente. Assim como, diminuir diferenças e também a violência que existe entre as religiões”.
“A intolerância é uma construção histórica que está inserida em uma estrutura social”, destaca Ana Raquel.
O professor Hadi Khalifa, um dos fundadores da primeira mesquita muçulmana do Espírito Santo, concorda e traz ao debate a questão da falta de conhecimento e espaço para a prática de religiões além do cristianismo. “É preciso entender os diferentes tipos de necessidades que a religião apresenta e respeitá-las, abrindo espaços próprios para o exercício sem julgamento e que a pessoa sinta-se confortável”.
O maior desafio encontrado por Khalifa na busca pelo diálogo inter-religiosos no Brasil foi encontrar espaços em locais públicos para manifestar livremente a religião. “Aqui não temos mesquitas a cada esquina, como temos igrejas cristãs. Por isso, é importante estabelecer lugares, mesmo que sejam do tamanho de um quarto em locais públicos, para que as pessoas se sintam confortáveis e acolhidas para exercerem livremente suas orações”.